sábado, 18 de julho de 2026

Ciel de cendre

Se ainda tenho um maço
e alguns baseados
Permaneço hoje de olhos fechados 
Com mil sinais brilhando nas minhas costas

Ando de trás pra frente
não porque retrocedo
mas olho o passado se montar diante de mim
com as costelas doídas de bater nas quinas

Os olhos cansados de ver tudo se repetir,
os pés automáticos mas aterrorizados
o futuro cada vez mais perto, nunca chegando
me puxando pelo ombro em silêncio 

Ando para trás porque é a única maneira de seguir em frente
estou cansado de correr apenas para o passado 
mas parece que nasci para isso, para todo esse percurso 
Talvez eu pudesse ter apenas um vislumbre

Ficar parado, olhar por cima do ombro rígido
Ver o que me espera
Mas só ao imaginar já congelo 
Só de pensar o nó já me invade a garganta

Preciso andar, mas não quero andar de costas
Tive o dom  para várias coisas, mas não para isso
Não para amenizar as ansiedades do coração do meu pé
Não para ver o futuro, mas para esperar

Tive o dom de poder acertar
Mas a maldição de nunca saber quando 
Quero ir, cansei de ficar
Mas é aqui onde posso me abrigar

Aqui, longe

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Venlafaxina 75mg

Cá estou eu, entre arfadas
Sai de mim melancolia, tantos dias que não te vejo 
E vem correndo a cada vez que fecho uma porta de casa
Não tenho tempo, ar ou sossego pra ser melancólico agora

Aquela pontada quase como se me empalassem o coração 
Sinto como se pudesse, em vias literais, morrer de medo 
Será que apostei demais pra mim? 
A cortina de fumaça está se esvaindo

Não quero ir junto,  não quero ver
Quero ver, quero ir
Não digo, desta vez, que me perco
Pois tenho medo demais para parar e olhar

Onde me enfiei 
Onde depositei minhas fichas
Provavelmente em mim mesmo, acho que ganhei, alguém me disse
E o que faço com esse sentimento duro 

Que não posso ainda nem te conceber
já sofri demais hoje 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Early wakening

 Two thousand and fuck

Awakening of the best

Who let all dreams to waste

Drinking and smoking what one could

For a little bit more of whatever it takes

To open my eyes while looking

And close them while sleeping

For I can only go with what adds me

Above all my lacks and losses

It's still here

My body, weightless, mindless pretending

Of a life I dream

Once bitten by all the past injuries 

And not fully eaten 

Saved by my lust of not driving it to oblivious

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Can't

 Im such

An exaustive

Person

You know the feeling of teaching when "if youre having fun, they are "

Well im feeling like nobodys having fun

 Im too broken for all of this

I will never belong I guess

And ive lost so much

 I almost dont have nothing else left to hold onto

That tells me im worth to keep goinf

Every memory is just another fail predicting and every trial is another place to  fall and nothing changes

And each time I fall is worse

 So i dont feel like I got better and im backsliding

I feel like im really close to the end

And maybe its all just ego

Attention and recognitions 

To save a soul from fleeing

Far cry from home

Would I believe in all the answers 

If they had gone in my way?

Can I believe in all the answers

If they start going my way?

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Pouco

Eu quis
a todo custo
recuperar o que perdi 
Me distanciei ao máximo 
de tudo o que uma vez decidi 
Ser,
e mais, viver
nunca foi tão difícil 
Partido ao meio e em fragalhos 
perdido e agarrado ao descaso 
fui me tornando mais raso 
pra fugir daquela dor 
fui diminuindo 
pra caber
dentro
de mim 
mais uma vez
longe de todo amor 
e perto de toda saudade 
Jogo os braços pra cima num impulso 
de agarrar em algo que me salvaria de mim mesmo 
Mas estou cansado de lutar para não afundar
enquanto me disparo palavra por palavra 
É só mais uma tentativa desesperada
Por algo que nem sei mais o nome 
Alguma coisa que me acalme 
E me dê contorno sólido 
Pra falhar de novo 
Outra vez 
Pouco






quinta-feira, 19 de junho de 2025

Uma copia barata de fernando pessoa

Por mais incrível que pareça

Por mais risório

Não  explodi 


Não voei como pó 

Não sumi do mundo 

Não  sucumbi


Por quê? Pra quem? 

Do custo guardei todos os cupons fiscais

Da perda guardei todas as memórias 


Porque ficaram todos lá 

E não voltaram


Mas continuei 

Só eu

Onde estão os que tem meu sangue

senão frios, por baixo ou por cima

da terra fria, que come e corrói 


Quem vai me provar

que esse tempo não é extra

e que há  um motivo 

Para percorrer esses corredores

Varrer esse chão, fechar essas janelas

Abrir essas janelas


Quem vai me convencer

De que é certo estar aqui

De que valeu a pena ir tão longe


E suportar tanto

É como levar um copo dágua às fontes

E ir tão  longe

É como escrever um livro sem letras, sem história 

E continuar tentando

É como desistir, e perder

E perder, e perder

e perder

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Enrolar sacolas

 Por quê caralhos estou enrolando sacolas?

Vou tentar escancarar os fatos em palavras, embora faça muito tempo que não venho aqui, tanto que ponderei um tempo sobre qual “porque” usar na primeira frase. Já escrevi um livro, pode imaginar? Eu não. 

Mas voltando; Por quê caralhos estou enrolando sacolas? 

Um lugar para as de tamanho médio, um para as de tamanho pequeno e outro para as grandes. Não paro de pensar na maneira que minha mãe costumava a enrolar sacolas depois de voltar do mercado. Como toda tarefa doméstica, eu não conseguia fazer do mesmo jeito que ela. É estranho sentir falta das raízes que formaram meus traumas. Mas hoje, só hoje, consigo ver o amor por trás do esporro. Que amor teimoso. 

Segure pelas alças, puxe a sacola num tranco para que o ar lhe dê um formato mais uniforme, a esprema de cabo a rabo para virar um cilindro. E depois? Lembro de vê-la enrolando a sacola em volta do punho e fazendo um nó que a deixava compacta, pronta para se acomodar junto com todas as outras. Eu costumava a dizer que aquilo era desnecessário. Não digo mais. 

Enquanto conseguia minimamente enfrentar toda aquela bagunça de pensamentos cruzando minha cabeça e eclodindo no meu peito, comecei a arrumar a casa. Quando me deparei com o lugar onde guardo as sacolas transbordando, com a alça podre prestes a cair da parede, decidi enrolar as sacolas.

Mas eu sei que não era o que tinha planejado. Eu tinha planejado lavar a louça, varrer.... Tinha? Em tempo real, enquanto escrevo, me pergunto, atônito: O que planejei? Se me ponho em retrocesso e análise, percebo que não planejei nada no final de contas. Talvez tenha jogado constatações mentais como uma pedra no fundo de um poço, “Vou fazer o que puder, porque desde que eu faça todos os dias, a bagunça e a sujeira não vão continuar acumulando.” 

É claro, tenho a sisterna cheia de cocô e mato para limpar. O caminho desde o portão para abrir. Os matos da minha fachada para tirar. Minha varanda para coletar todo o lixo que varia entre bagulhos e até mesmo roupas que viraram farrapos de tanto tempo largadas. A área da piscina com uma cortina que tirei para lavar alguns meses atrás, em outra epifania de limpeza. Minha sala, com a estante cheia de documentos importantes que nunca mais consegui organizar, ela virou uma alegoria para o ponto de partida da minha resolução da faculdade, já que alguns documentos que preciso estão lá. Minha faculdade.... Quase dez anos de formação, muitas dores e reviravoltas para chegar num currículo 100% completo mas ainda assim, sem a coragem para mandar emails e descobrir como receber minhas horas complementares e me formar. É literalmente uma burocracia a se resolver, depois de tudo o que passei. Falando em burocracia, nunca imaginei que me demitiria de algum lugar e não daria baixa na minha carteira de trabalho por mais de 4 meses. E são quantos bancos, 5? Quanto em dívidas, dez mil? Não é exagero. 

 Aqui, dentre os cômodos que perdi pra bagunça e as roupas largadas, carrego baldes por falta de água encanada. A quase cada minuto, tenho espasmos físicos quando um relance de algum desses temas listados acima batem na minha cabeça. E aí me pergunto: por quê estou enrolando sacolas? 

Uma voz baixa e rouca fala ao fundo que eu devo me lembrar de todos os dias que não enrolei sacolas e também não fiz nada além, que eu deveria me parabenizar por um ato tão simples porque é uma imagem de superação. 

Mas as outras vozes gritam, com frequência e desenfreadamente: Você está enrolando sacolas. Não deveria fazer todo o resto?

Como dói acreditar nas vozes que gritam me obrigando a ter um desempenho sobrehumano quando vivo em condições desumanas. Encurralado pelas paredes, pela sujeira e por mim mesmo. 

Quero acreditar na bênção de enrolar sacolas. E na energia comprovada aqui, por meio de palavras, de que eu posso fazer algo mais do que apenas apodrecer e esperar minha morte. 

Factualmente, é verdade que devemos desistir de tentar resolver tudo e dar atenção às coisas paulatinamente, vez atrás de vez, para não sermos consumidos. Mas aqui estou eu, a enrolar sacolas, sendo consumido ainda assim por tudo que não faço, como se não houvesse outra escapatória para esse caos que me meti a não ser transcender. Evoluir para um outro tipo de ser, sem condições e distúrbios, forte e saudável, refrigerado e são. E se não transcendo, apago. 

Quero lembrar da minha mãe. Ela não me passou bem como enrolar sacolas e nem a sua fé. Mas aqui, sentado no chão da cozinha, acabei de descobrir outra forma. Começo como minha mãezinha, mas depois do cilindro, eu dobro a sacola ao meio e dou um nó. Estranho e sem jeito, mas parece funcionar. Elas não abrem e ficam compactas. Provavelmente se ela visse, iria me julgar. 

E a fé? Também não aprendi. Apenas, de alguma forma, a herdei depois de sua morte. Ela é torta e sem jeito, mas é. Algo me diz que não há enrolar sacolas sem ter fé e nem ter fé sem enrolar sacolas. Quero acreditar que um dia eu chegarei lá. 

E não estarei sozinho, levarei os meus amigos. 

Por enquanto, vou enrolar sacolas

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Ao mesmo tempo

Tudo ao mesmo tempo 
Todas as emoções, todas as faltas
Tudo ao mesmo tempo
Todos os vícios, todas as dádivas
que, momento ou outro, recebo
Mas de resto, é tudo
Tudo ao mesmo tempo 

Chego em casa, onde tomo minha dose?
De tantas substâncias, virei pó
E se me colocam na palma da mão
Desapareço com um sopro
Tudo ao mesmo tempo

Meu ensino superior? Lascou
Relacionamento? Acabou
Nem me demitir consegui
Como um arrebatamento, 
estou preso entre andares
Nem vida, nem morte
Mas tudo ao mesmo tempo 

E meus dons, fui perdendo
Não ao mesmo tempo
Pouco a pouco, lá dentro
Como um cacto sendo despido
Espinho por espinho

Tenho medo
De tudo, todo o tempo 
Mas principalmente
tenho medo de que eu mesmo
não dê mais espaço ao que fui
nem sala ao que posso ser

Como deve ser
dar um passo apenas depois do outro,
não antes
Como deve ser, não enrolar as pernas
Deixar cada coisa no seu tempo
E eu, todo
Respeitar o momento 

terça-feira, 17 de setembro de 2024

É manhã

É manhã
Não sei se aprendi

Silêncio

Não escrevo mais, isso esqueci
Agora só faço versos 
de melodias que não sei cantar

Hoje trabalho
Coloco meu pé no mundo
Mas tenho medo 
O mesmo de ontem e do ano passado 

Ainda sei falar?
Drummond e Pessoa me tiraram as rédeas da rima 
Quais me prendem agora?
Não sei

Silêncio

Onde está o peso das minhas palavras?
Foi uma boa ideia voltar aqui?
Num tempo de tantas voltas, nenhuma me edifica
E mesmo ele me romperia 

É tudo por um bem maior
Essas águas vão passar?

Silêncio

Hoje vou levar o dia contemplando 
Onde foram parar meus pensamentos
De quando era poeta
Onde está situada minha estrutura
de quando era diferente, mas firme

Silêncio

É difícil me despedir de um poema
Que me deixou triste por mostrar
O que eu já fui um dia
pela contraposição do que não tenho

Espero
Que a referência então seja do futuro 
Para que eu contraponha a luz com meu presente
Que é iluminado por feixes escassos
E mesmo em fragalhos
Às vezes meus olhos castanhos ainda iluminam

Silêncio

Iluminam?
É um marrom diferente quando acontece
Como se meus olhos perdessem vendas 
E ganhassem cor

Silêncio

Sejá lá como for

quarta-feira, 29 de maio de 2024

water and flowers

I'm clean
Therefore, I see the dirt, everywhere, everytime
Im a hostage with open doors
Far cry 
Just a memory for those who visited my body, touched my soul 
What's the weight of lost dreams, false hopes and pain?
Certainly more than I could bear
Even though I'm here, I don't feel the same
But this time it's different 
Tomorrow seems beyond range 
And All I can touch is dust
On the ground, from my body
A vessel used to dream 
I just wanted water and flowers
But I got this
And whatever has been poured in 
Dooms the vassel 
Cracks the soul 
Crashes the heart
And glue it would be a daydream wishful thinking

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

tragédia

Parte 1

Tenho medo de morrer buscando algo que estava aqui o tempo todo
Passar a vida correndo atrás das coisas e correndo para fugir das outras
Que tragédia, olhar as folhas, sentir a brisa fresca, os respingos da chuva de verão, o abraço do amado
Que tragédia passar por tudo isso com medo, ânsia, angústia, dor enraizada no peito.
Reclamo do que não tenho, e muito 
Mas reclamo ainda mais do que tenho e que mesmo assim não consigo tocar, compreender, sentir

Uma tragédia
Não ter medo de nunca melhorar, não
A tragédia é não saber se há capacidade em mim de ser feliz, de olhar as pequenas coisas
Sofro, mas queria sofrer menos
Choro, mas ainda tenho braços e pernas, piso firme
Grito, mas poucos ouvem minha voz abafada
Caio, me arrasto e caio de novo, mas tenho esperança
Por isso espero, mesmo que pouco e à contra gosto, espero

Parte 2

Então vou esperar sem sentar quieto
Vou correr, buscar ar novamente, tocar os tecidos
Sentir os cheiros, amar e ser amado
Apesar das dores, dos abandonos, das mágoas

Vou viver, de alguma forma, vou continuar
Até o dia em que meu corpo ser pó e virar um com o mundo 
Até esse dia eu vou fazer o que posso 
Correr na minha velocidade, andar no meu ritmo
Até lá, vou indo
Uma respiração de cada vez, uma página de cada vez
Agradeço ao calendário 
Nada como um dia após o outro

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Mais je ne la veux pas.

Ils ont volé ma joie de vivre

Est-il, l'ennemi, public ou privé?

Si public, est-il le monde en guerre contre moi,
qui perece, sans armes? 
Ou, est-ce qu'elle me manque la capacité de bien  voir le monde et de ne plus me blesser

Si privé, je me'en prie, donnez-le moi
Ça déjà existait, je sais, je me souviens,
c'est pas une mensonge

C'est vrai! J'ai déjà été heureux!

Et je prie, je crie, je lamente 

Vivre

Malgré tout, vivre

domingo, 9 de outubro de 2022

Lugares e Pessoas

 Como meus antigos dessas terras, o espelho me deixa atônito
Também como eles, daqui às ilhas do Caribe, tive algo roubado 
O lugar, as Pessoas, todos que estavam ali. 
Possuídos, condicionados, cortados.

As ruas dos lugares que vivi trazem um pouco daquilo que não se tem mais
nas memórias enfurnadas entre os comércios, ruas, casas, praças e rostos conhecidos.
Mas metade das portas foram fechadas e o vento já não leva uma brisa tão fresca pelas ruas como antes. 
E pior, até mesmo minha antiga casa virou parte da realidade bruta, que espanca a memória.

Lugares continuam a existir sem que estejamos lá, o mundo de fato, gira. 
Mas quando voltamos, porque já não vemos mais nada? Não sentimos mais nada
Não há com quem falar, não há teto onde dormir, há apenas um lugar
Que existiu mas hoje faz algum papel que não me incomodo em explorar

As Pessoas não continuam
Como colonizados, levados embora, um à um 
Ou eu, ou eles, não fujo da fila nem tento interromper a roda, que gire
Às vezes, até mesmo, por vontade própria,
com despedidas esganadas pelos dentes que saem pelos lábios quase como um suspiro

Os lugares e as Pessoas vão
E não saber pertencer pode até não ser tão ruim quanto não saber sobreviver
à todas as mudanças e navios piratas que nos levam de tempestade em tempestade
E passamos os dias nos perguntando até quando esse casco irá suportar o tranco das marés

terça-feira, 23 de agosto de 2022

"Manipulador, fez sua decisão e que vá com Deus!"

"Estrela do meu céu", me chamou em embriaguez
Acreditei que era, mas o céu logo escureceu 
e estrelas não couberam mais

"Filho" era como me chamava nos finais de semana intercalados
enquanto o processo judicial era feito para me privar auxílio
o emocional era de distância, desde o início

Por duas letras do meu nome é como elas me chamavam
a primeira, falando alto, não gritando, dizia que me amava
A segunda, quando não gritava, fazia o mesmo

Como torres gêmeas, a primeira explodiu, aos destroços
olhei para cima e torci para ser esmagado, levado junto
E então vi minha morada, a outra metade, ainda de pé

Tremendo, quase um arranha céu pêndulo
Corri e chamei de moradia. Ferido e instável
Me propus a ser cimento, tijolo, ferramenta

Mas quando as portas abriram, não havia mais prédio
Não havia cor, nem cheiro nem calor
Só um terreno baldio ao lado dos recentes destroços

Sempre imaginei os natais e em como eu seria chamado
Mas cada vez foram chamando menos
Os natais continuam 
E meu nome, ou apelido, por poucos, ainda mantido

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Tempo

Se me dessem um dia no futuro
não gostaria, e meu corpo empolaria em feridas
que abririam em sangue
A matéria desse corpo é do presente

Se me dessem um dia no passado
não gostaria, e meus sentidos falhariam
Língua áspera, olhos secos, nariz dormente e digitais rasgadas
A matéria desse corpo é do presente

E não digo que sou bobo 
que perderia os números de loteria
ou que não aproveitaria melhor das despedidas
que quando se deram nem nome tinham 

Apenas aceito, com a prepotência de cogitar
hipóteses possíveis ou iludidas 
porque se tudo me diz que é aqui onde devo estar
tiro a responsabilidade dos meus ombros e entrego ao tempo

E se tudo me diz que aqui devo permanecer 
Até que aqui torne-se lá
Já não sou obrigado e nem responsável
Deixo o universo, o fluxo das águas
a direção dos ventos e do tempo decidirem

domingo, 7 de fevereiro de 2021

A situação do meu peito em Fevereiro

O turbilhão subiu das pernas para o peito
Deixou minhas panturrilhas com um vazio dolorido
Mas a latência involuntária não é mais como mil agulhas
Agora é pano quente que cobre meu tronco, pesado e úmido
 
Queria, num banho de rio, sentir tudo afora pela água 
E os restos, que a correnteza levasse
Mas água não cura solidão
E solidão velha e impregnada que nem essa não lava fácil 

Antes as barras dessa prisão fossem concretas
E os guardas, que decidem tão facilmente meu ir e vir, fossem cruéis 
E o colchão justificasse minha insônia
E as paredes infiltradas dessem nome à minha doença

Mas aqui amor é disfarçado de culpa
Cobrança é vendida como segurança à preço de dólar
Estar sozinho, pelo visto, foi minha escolha
Da cabeça aos pés, turbilhão 

E em algum lugar uma criança vai à rua
Me vê 2 reais de pão e uma coca
E seus sentidos anseiam, no máximo, pelo dia seguinte
E seu corpo, da cabeça aos pés, simplesmente é

domingo, 8 de novembro de 2020

Meu cemitério de navio

 

Há alguns dias abandonei navio

Pulei em água fria, minhas juntas petrificaram-se em gelo

Achei que estava fugindo dos problemas

Que a tripulação era o que eu ia deixar pra trás

Mas na água me rondavam as almas dos meus mortos

Olhavam pra mim com os mesmos olhos de quando morreram

O medo da escuridão abaixo d'água e a companhia fúnebre

Só me senti mais sozinho, mais frio, mais derrotado

Meu corpo foi até o fundo, onde pensei que fugiria

Matei tudo, matei todos, morri comigo mesmo

Acenderia um cigarro nas profundezas do meu medo?

É apenas o que faço, espero as almas se assentarem

Mas sempre correm a minha volta com medo e agitadas

Há alguns dias abandonei navio

E enterrei ele comigo mesmo

Em meio ao oceano

Cavei minha cova e morri com meus medos

Porque tive medo de enfrenta-los

Então os afoguei, junto do meu corpo

Onde todos morremos de olhos fechados

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Parto de alma

A figura paterna, tão dentro de mim 
Não fui pai, mas criei filhos
Não fui mãe, mas conflitos e ideias cresceram 
No meu ventre? Se não tenho um, onde guardo isso?
Onde cresci os medos, onde criei minhas questões?
Para onde foram meus nutrientes e de qual maneira eu poderia dar de mamar?

Minha alma é gestante e minha mente vagueia pelo campo
Procura quem precisa de ajuda, se doa como se acolhe um filho
Mas a mulher grávida anda de pés descalços na lama
Veste trapos e não sabe pra onde vai 
Apenas vagando, pouco lúcida, duvidosa de suas necessidades

Um seio coberto pelo tecido sujo e amarrotado
Outro pendendo para fora, a glândula mamária protusa,
mordida e de feridas com sangue seco 
O leite provavelmente acabou, não há mais suco, nem cura
Onde estão meus filhos? Ouço o choro
Vejo seus corpos pequenos em meio ao desastre
 
Minha alma de mamas afetadas deita sobre a grama
Não é só onde forneço que dói, todo o resto também grita por ajuda
Onde está minha mãe? Onde está meu pai?
Pensei que a história pudesse começar por mim
Mas pareço o ponto zero
Começo, meio e fim, tudo junto no pequeno bico do peito 

A língua da mulher como lixa passeia pela boca em atrito
Sua secura alerta a desidratação que percorre todo seu corpo 
Ela deita sobre a terra e espera, sem muitas esperanças 
que a terra lhe dê o que for preciso 
Espera que o solo fofo tenha nutrientes o suficiente 
Na umidade escura ela fecha os olhos e espera
E apenas isso

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Frio


Quase palpável, essa massa densa se esgueira pelas minhas entranhas e muda tudo de lugar, empurra meu coração para o lado, os pulmões para frente, o estômago para baixo. Ela não tem o objetivo disso, não se move por caminhos planejados, apenas vaga sem rumo. Dentro de mim, me comendo de dentro para fora, me rouba o ar e me anula as palavras. Essa massa caga o silêncio pela minha boca e mija as lágrimas pelos meus olhos. Meu parasita. Morador que não seria tão violento e perigoso se eu soubesse com mais frequência que somos separados e singulares. Os dias passam e o vejo como eu, me vejo como ele. Mórbido, quieto, pesado, lento, triste. Me roubou quem eu era.  Dedos rápidos, melodia em palavras, pensamentos elaborados e amor ao espelho. Quem eu era mesmo? Às vezes tenho relances de memórias que me esquentam um pouco por dentro, o parasita se retorce um pouco porque não gosta do calor, ele quer o frio. Quando fazia gambiarra para deitar no chão e ver, do pequenino monitor, episódios de naruto que eu logo comentaria com meus amigos no dia seguinte. Quando voltava da escola e chovia. Quando saía com meus amigos e todos estavam ali, entre si, e em mais nenhum outro lugar. O verme se contorce um pouco, peregrina entre alguns órgãos e logo se acomoda novamente. Logo esfrio por dentro e logo me situo. Frio. Há também os relances de um futuro, desses o calor era ainda maior, mas nem esquentam mais. Amar, viajar, me libertar, ganhar, criar. Eram como uma fogueira constante à qual eu sempre procuraria abrigo e calor. Depois de longos dias difíceis era ao lado dela que eu aqueceria minhas mãos entre baforadas nos palmos aquecidos de suor frio. Mas se apagou. A noite agora não tem luz nem chama. A madeira está molhada e faíscas não vingam mais. Quem eu era mesmo? Eu era quente. Por quê está tão frio? Frio como um cadáver.