Quase palpável, essa massa densa se
esgueira pelas minhas entranhas e muda tudo de lugar, empurra meu coração para
o lado, os pulmões para frente, o estômago para baixo. Ela não tem o objetivo
disso, não se move por caminhos planejados, apenas vaga sem rumo. Dentro de
mim, me comendo de dentro para fora, me rouba o ar e me anula as palavras. Essa
massa caga o silêncio pela minha boca e mija as lágrimas pelos meus olhos. Meu
parasita. Morador que não seria tão violento e perigoso se eu soubesse com mais
frequência que somos separados e singulares. Os dias passam e o vejo como eu,
me vejo como ele. Mórbido, quieto, pesado, lento, triste. Me roubou quem eu
era. Dedos rápidos, melodia em palavras,
pensamentos elaborados e amor ao espelho. Quem eu era mesmo? Às vezes tenho
relances de memórias que me esquentam um pouco por dentro, o parasita se
retorce um pouco porque não gosta do calor, ele quer o frio. Quando fazia
gambiarra para deitar no chão e ver, do pequenino monitor, episódios de naruto
que eu logo comentaria com meus amigos no dia seguinte. Quando voltava da
escola e chovia. Quando saía com meus amigos e todos estavam ali, entre si, e
em mais nenhum outro lugar. O verme se contorce um pouco, peregrina entre
alguns órgãos e logo se acomoda novamente. Logo esfrio por dentro e logo me
situo. Frio. Há também os relances de um futuro, desses o
calor era ainda maior, mas nem esquentam mais. Amar, viajar, me libertar,
ganhar, criar. Eram como uma fogueira constante à qual eu sempre procuraria
abrigo e calor. Depois de longos dias difíceis era ao lado dela que eu
aqueceria minhas mãos entre baforadas nos palmos aquecidos de suor frio. Mas se
apagou. A noite agora não tem luz nem chama. A madeira está molhada e faíscas
não vingam mais. Quem eu era mesmo? Eu era quente. Por quê está tão frio? Frio
como um cadáver.